Já imaginou construir uma casa em poucos meses? Em madeira
ou com elementos pré-fabricados em betão, as soluções
são tentadoras, a preços apetecíveis e muitas
têm um encanto irresistível.
por
José Cid dos Santos
1
Madeira
ou betão?
Casas construídas com troncos, pranchas de madeira
ou painéis de betão pré-fabricados
têm duas coisas em comum:
•
Uma vez iniciada a construção,
levam menos tempo a erguer. O facto de tudo ou quase tudo
chegar à obra já na medida certa, somado
à ausência dos tempos de secagem de argamassas,
torna a construção mais rápida
• Construção
mais célere requer menos mão-de-obra. Adiante
daremos indicadores de preço para as várias
hipóteses
Prazos
Os fabricantes, por norma, cumprem os tempos de obra contratados,
mas há que somar a esses prazos a espera até
início dos trabalhos. Além da criação
de infra-estruturas no terreno e obtenção
das licenças e aprovações, há
outros trabalhos que o fornecedor tem de fazer antes de
construir:
•
No caso das madeiras, a secagem em estufa e transporte
•
No caso dos pré-fabricados de betão,
a reunião dos vários componentes (pilares,
vigas e painéis) para transporte.
2
Crédito
As casas de madeira e pré-fabricadas (ou com incorporação
de elementos pré-fabricados) podem beneficiar dos
mesmos créditos à habitação
aplicáveis à construção convencional
em al-venaria. Alguns fabricantes têm acordos com
institui-ções bancárias e facilitam
a vida ao cliente, devido à sua grande prática
na instrução dos pedidos. O que também
permite ao comprador só formalizar o negócio
depois de ter garantia de obter o crédito.
3
Razões
de recusa
Em vilas ou aldeias tradicionais, o projecto de uma
casa em madeira pode ser recusado exclusivamente por
razões estéticas, tal como, mesmo fora
do aglomerado, se a casa em madeira for avistável
a partir de uma povoação que o município
considere “tradicional”.
Há câmaras algarvias que aprovam projectos
de casas em madeira na condição de lhes
ser aplicada uma velatura branca nas paredes. Existem
velaturas micro-porosas nessa cor, que deixam respirar
a madeira e a conservam, tal como quaisquer outras.
Convém
ainda saber que existem abrigos de jardim, ou refúgios
de montanha, em madeira, alguns com áreas superiores
às admissíveis para uma residência
convencional que não podem ser licenciados como
habitação. Há-os no mercado com
áreas dos 30 aos 80 metros quadrados. Mas ou
os quartos não têm as dimensões
mínimas ou o número de casas de banho
não atinge o mínimo exigível. Segundo
a legislação portuguesa, casas com três
ou mais quartos terão de ter mais de uma casa
de banho.
4
Formalidades
Uma casa em madeira ou em painéis pré-fabricados
de betão, actualmente, obedece às mesmas
normas e requer exactamente o mesmo tipo de licenciamento
camarário que uma construção convencional.
Obter licença implica:
•
Indicação de um técnico
responsável qualificado e inscrito no município
em causa
•
Apresentação de projecto de
arquitectura
•
Projectos de especialidade para fundações
e estruturas, electricidade e hidráulica (águas
e esgotos)
Mais requisitos…
Grande
parte dos fabricantes aceita projectos dos clientes
(desde que exequíveis), faz projectos por encomenda
e dispõe dos seus próprios projectos--tipo.
Caso opte por um destes, ainda serão necessários
os seguintes projectos específicos:
•
Fossa asséptica •
Ligação à rede de esgotos •
Canalizações •
Muros •
Outras intervenções no terreno
O tempo requerido para satisfação desses
requisitos varia de município para município
(em termos médios, um ano de espera após
entrega da documentação). Alguns fabricantes
encarregam-se dessas formalidades sem si-gnificativo
aumento de custo.
5
Amigas do ambiente
As
casas em madeira são bonitas, ecológicas
e parecem autênticas extensões da Natureza.
Como não requerem estaleiro de obra, podem ser
edificadas em zonas com vegetação e boa
sombra, ao contrário de uma construção
tradicional que obriga a abate de árvores na
pro-ximidade imediata. Há quem chegue a adaptar
o projecto para que um ramo de uma árvore de
grande porte atravesse a varanda. Origem
das madeiras
As madeiras utilizadas na construção de
casas provêm de bosques organizados com um severo
controlo do ritmo de plantação e abate.
As madeiras são importadas, sobretudo, do Brasil,
nas de pranchas, da Finlândia, Suécia,
França, Alemanha, nas de troncos. Neste último
caso, surgiu já há tempos uma importante
incorporação de produto nacional. Nos
Açores, sobretudo na Ilha de S. Miguel, dá-se
excelentemente a cliptoméria japónica
ou cedro do Japão, uma madeira de tão
boas qualidades que constitui um extra.
Tratamento
Todas as madeiras requerem tratamento regular. Deve
ser-lhes aplicado verniz, tinta ou velatura (a gosto
do cliente, com um tom ou incolor), no mínimo,
de três em três anos. Há tratamentos
que, além de impermeabilizar, protegem de fungos
e insectos. Alguns contêm ainda um filtro de protecção
contra os ultravioletas da luz solar.
Advertência
Apesar de as madeiras utilizadas serem, por norma,
de alta densidade e sujeitas a tratamentos retardantes
da combustão, há que ter todo o cuidado
com os incêndios. No meio de um pinhal que,
se for atingido por chamas, desenvolverá grandes
temperaturas, não é aconselhável
(tal como não o é para uma construção
em tijolo ou mesmo em pedra). Mas junto de algumas
árvores, de preferência frondosas, com
terreno limpo em volta, os riscos estão minimizados
(Ver Resistência ao fogo).
6
Troncos ao natural
As
casas de troncos, de inspiração nórdica,
têm uma aparência singular e encontram raiz
histórica nos abrigos dos nossos antepassados
remotos. Pela sua simplicidade e por uma certa aura
romântica que as envolve, têm simpatizantes
nos quatro cantos do mundo.
Particularidades •
A construção em madeira tem propriedades
anti-sísmicas tão boas ou ainda melhores
que a construção tradicional •
Os troncos funcionam como tijolos muito compridos
que encaixam uns nos outros em sistema macho-fêmea,
assegurando uma união e uma estanquicidade
perfeitas •
O uso do sistema de lamelado-colado nalguns
elementos resolveu alguns inconvenientes, sobretudo
no plano estético, das dilatações
e contracções da madeira •
Quer as colas utilizadas em lamelados quer os tratamentos
de protecção são microporosos,
isto é, deixam a madeira respirar •
Em termos de isolamento, uma camada de lã de
rocha e uma câmara ventilada entre o telhado
e o forro protegem o interior das temperaturas altas
e baixas
Quanto custa? O
tipo de madeira e a sua espessura, a forma da construção
e o número de janelas fazem variar substancialmente
o preço. A título de exemplo, uma casa
com 170 metros quadrados em pinho nórdico com
paredes exteriores de 12 centímetros de espessura
custará entre 106 e 117 mil euros. O custo
da instalação eléctrica acrescerá
cerca de 5 mil euros e a instalação
sanitária 10 500 euros. Optando pelo mínimo
dos mínimos a casa custará cerca de
121 mil euros. Se optarmos por cedro do Japão
em vez de pinho nórdico, esse valor subirá
6 mil a 6500 euros. Um reforço da espessura
das paredes, com troncos de 16 centímetros,
é o extra mais caro: para os mesmos 170 metros
quadrados, entre 20 e 23 mil euros. Tudo somado, uma
casa com essa área, com água, electricidade
e esgoto e os dois extras mencionados (IVA incluído)
custará entre 156 e 168 mil euros. As melhores
empresas garantem tempos de montagem de cerca de mês
e meio por cada 100 metros quadrados de construção,
o que significa que para a área mencionada
o tempo de obra oscilará entre mês e
meio e dois meses.
7
Pranchas
As
casas em pranchas de madeira, de inspiração
vinda do continente americano, tal como as de troncos,
têm encaixes horizontais do tipo macho-fêmea.
Particularidades •
São mais baratas e mais vulneráveis
ao calor •
A principal precaução ao adquirir uma
casa deste tipo tem a ver com a qualidade (em particular
a densidade) das madeiras. Quanto mais densas, melhor
isolamento, térmico e acústico, e maior
resistência terão ao fogo e às
pragas, como fungos e caruncho •
Essencial, em regiões quentes, é uma
parede dupla, visto que a temperatura é o grande
óbice deste modo de construção
Quanto
custa?
Existem modelos a partir de 25 mil euros com áreas
na ordem dos 70 metros quadrados e cerca de 90 metros
quadrados na ordem dos 32 mil euros, preços
incluindo casa de banho (ainda que mínima)
já com louças, varandim em dois dos
lados da construção e escada de acesso
e ligação dos esgotos à fossa
ou ao colector. Montagem: cerca de um mês (após
a chegada de todos os materiais ao local de construção,
o que poderá demorar até 4 meses, visto
que as madeiras irão ser encomendadas, secas
e cortadas).
8
Resistência ao fogo
O
Eurocódigo 5 é uma norma europeia que
estabelece os requisitos específicos para a construção
em madeira e o dimensionamento das peças estruturais
com para resistirem a cargas e ao fogo.
Quanto ao fogo, a norma europeia estabelece, muito grosso
modo, que uma construção em espaço
público terá de resistir a chamas intensas
durante 60 minutos sem desabar. Para cons-truções
privadas é exigida uma resistência de 30
minutos, o tempo tido por necessário para salvar
pessoas e bens mais valiosos e para a intervenção
dos bombeiros.
Se pensa comprar uma casa em madeira pode pedir que
lhe façam as contas: quanto tempo resiste esta
casa a um fogo violento sem desabar?
O cálculo é relativamente simples. Em
termos médios, o fogo, em 10 minutos, corrói
0,7 milímetros num tronco (note-se que, após
os incêndios, os troncos das árvores cuja
rama ardeu continuam de pé e ainda vão
ser cortados e utilizados para vários fins).
Sobredimensionando os pilares de sustentação
de uma casa em 2,1 centímetros ganhamos 30 minutos.
Com o dobro, ganharemos 1 hora. Claro que estas contas
dependem da resistência específica da madeira.
Apresentámo-las apenas para que o leitor saiba
que o fabricante pode calcular, com muito razoável
exactidão, a resistência do produto que
lhe está a vender.
9
Chapéus há muitos…
As
casas em madeira oferecem uma imensa variedade de coberturas
à escolha do cliente. O telhado tem por função
primordial lançar a água das chuvas para
longe da casa, visto que o isolamento está a
cargo da lã de rocha que lhe fica por baixo e
da caixa-de-ar ventilada. Por isso, são possíveis
várias soluções:
•
Telha cerâmica. Igual à usada na construção
tradicional
•
Placas de ardósia. Uma opção nas
zonas do País onde essa pedra existe em quantidade
•
Telhas em madeira tratada. Solução pouco
difundida e com pouca aceitação em Portugal
o que a torna cara
•
Telhas em cobre. Igualmente caras e pouco divulgadas
•
Telhado de colmo. Ainda mais dispendioso.
O colmo é caro. Além disso, carece de
um verdadeiro telhado por baixo
•
Telhado vegetal. A fotografia que publicamos foi tirada
no Minho. O telhado com uma camada de 10 a 15 centímetros
de terra proporciona a frescura de uma cave no interior
da casa. Uma tela isolante reveste o fundo dos dois
imensos canteiros que constituem o telhado. Há
quem corte a relva, mas também há quem
cultive flores.
A solução, em si mesma, é barata.
Numa casa de dimensão média, só
requer umas 30 a 40 toneladas de terra e a mão-de-obra
necessária para a colocar. Mas há um contra:
a estrutura de toda a casa terá de ser reforçada
para essas toneladas suplementares.
10
Painéis de cimento
Um
sistema com cada vez mais adeptos consiste em construir
com fundações e estruturas tradicionais
mas com paredes exteriores em painéis pré-fabricados
em betão, em vez de tijolo. Entre essa parede
exterior e uma parede interior, em tijolo, fica uma
caixa-de-ar que facilita o isolamento térmico,
acústico e higrométrico.
Particularidades
É como uma casa normal, com estrutura anti-sísmica,
e acabamentos à escolha do cliente. Existem,
contudo, duas grandes vantagens em relação
à construção tradicional:
1. Maior
rapidez – paredes e telhado são montados
em 15 dias
2. Maior
resistência – uma parede em painel prefabricado
não pode ser partida com uma marreta, como
sucede com as de tijolo.
Quanto custa?
O custo também é equivalente ao da construção
tradicional: um dos maiores fabricantes deu-nos um
valor de referência de 528 euros, acrescido
de IVA, por metro quadrado de construção.
11
Brincadeira
Esta
torre original, que pode servir para casa de brincadeiras
ou até para alojar visitas de última hora
numa casa de quinta, inspira-se nos espigueiros para
cereais da região das Astúrias. O modelo
está exposto, há três anos, junto
à fábrica da Rusticasa, que o vende em
kit, para o cliente montar, por cerca de 5000 euros.
Os responsáveis da empresa explicam: “Foi
quase uma brincadeira, visto que temos muitas obras
nas Astúrias e a coisa surgiu. Não tem
qualidade para habitação, porque, se não
estiver a coberto da sombra de árvores, quando
vem o sol fica um forno.”
12
Cubo mágico
Nas
grandes metrópoles começam a surgir certos
tipos de pré-fabricados vanguardistas, com design
arrojado e funcionalidades máximas em espaço
mínimo. É o caso do Loftcube, invenção
do alemão Werner Aisslinger criado a pensar na
utilização dos terraços berlinenses
para instalar habitações temporárias
minimais. Tornou-se um must pela sua evidente modernidade.
Esta espécie de caixa de televisor gigante pesa
duas toneladas e meia, oferece uma área interior
de 36 metros quadrados em open space e custa, na origem,
cerca de 55 mil euros. www.aisslinger.de