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A luz tanto acentua os detalhes e cria bem-estar como pode arruinar a beleza e gerar ansiedades. Iluminar uma sala obriga a não cometer alguns excessos, sob pena de anular o conforto.

 

texto de José Carlos Rodrigues

Iluminar bem uma casa é uma tarefa difícil para o comum dos cidadãos, apesar de ser praticada pela maior parte das pessoas. Sabe-se, por intuição, que certos tipos de iluminação não são adequados. Quase toda a gente já terá observado o efeito fantasmagórico que um projector de chão causa quando o seu feixe de luz incide, quase na vertical, sobre uma estátua. É quase óbvio que esse tipo de iluminação não deve ser utilizado. Mas se nos afastarmos 50 metros da estátua, o efeito do feixe de luz sublinha alguns contornos que são marcantes naquele elemento.

O arquitecto João de Sousa Rodolfo sabe que a luz constitui um factor determinante na leitura da forma e do espaço. Para planear uma casa, ele tem presentes alguns factores da biologia que irão ditar o comportamento humano no espaço que ele está a criar. “O olho humano é sensível a um espectro de comprimentos de onda reflectidos pelas superfícies dos objectos, captada por cones e bastonetes visuais. No processo de transformação da informação visual em imagem mental o homem introduz sempre factores de significação de origem biológica ou cultural.

Por outro lado, a luz provoca sombras e cambiantes claro/escuro que constituem um dos principais índices de leitura da profundidade, isto é, contribui para a percepção da tridimensionalidade dos objectos e das relações entre eles.

Deste modo, o arquitecto terá de incorporar no percurso conceptual do seu projecto este elemento essencial, considerando os seus aspectos fundamentais: natureza da fonte luminosa (luz natural ou luz artificial), intensidade luminosa, temperatura de cor e grau de difusão.”

Noções básicas
As lâmpadas dividem-se em incandescentes e fluorescentes.

As incandescentes normais são utilizadas para a iluminação geral, visto que proporcionam luz quente em todas as direcções.

As lâmpadas incandescentes de halogéneo difundem luz branca e quente e têm boa utilização iluminante.

As lâmpadas fluorescentes fornecem grande quantidade de luz difusa, mas interferem na definição das cores. A sua luz fria fomenta a actividade. Tornam-se mais baratas que as lâmpadas convencionais, visto que duram, por norma, 10 a 20 vezes mais que as incandescentes. Devido ao tipo de luz que projectam não são aconselháveis para as zonas de descanso da casa.

Na cozinha
A iluminação deve ser ampla e difusa, de modo a que se veja sempre e em todo o lado, mesmo dentro dos armários. Aconselha-se aqui a utilização de lâmpadas fluorescentes.

Na casa de banho
É necessária boa iluminação, especialmente em torno do espelho, para evitar ver falsas rugas causadas por sombras. Sendo possível, o estilo de iluminação tipo camarim de teatro é aconselhável. A luz de tecto deve iluminar bem e proporcionar sensação de bem-estar.

No escritório
A iluminação deve estar colocada à direita ou à esquerda da secretária, de forma a que ilumine os ombros de quem se senta. A localização dos candeeiros não deve interferir com o ecrã de computador.

Para ler
O foco da lâmpada deve estar dirigido ao livro, um pouco atrás e acima da pessoa. Uma lâmpada de 60 watts será suficiente.

Para ver TV
Não deve ter a sala na obscuridade nem deve ter luz a incidir no ecrã. A parede por detrás do televisor, ou a zona em volta, deve estar iluminada com luz difusa.

Temperatura da cor
Quando se fala em temperatura da cor (e da luz), fala-se de uma dimensão pouco clara para a maioria das pessoas. Um fotógrafo ou um operador de televisão sabem perfeitamente o que isso é. Consoante a temperatura da cor, assim irá variar a sensibilidade do filme e dos filtros que utilizam para obter o melhor resultado.
As temperaturas da cor têm três padrões base de graduação. Até aos 2000º Kelvin, entre os 2000º e os 4000º Kelvin e acima dos 4000º Kelvin (paradoxalmente diz que se tem luz fria quando a temperatura Kelvin é elevada).

A luz “fria”, ao acentuar os contrastes cromáticos, pode provocar desejo de acção, de consumo, de curta permanência. Uma passagem pelo hipermercado pode servir para perceber este tipo de iluminação. Ali as sombras estão reduzidas ao insignificante, tudo está exposto, a explosão das cores domina os sentidos. Apenas nas áreas onde é necessário aliar alguma ponderação ao motivar do consumo a luz baixa de temperatura, criando uma falsa intimidade. Normalmente este tipo de iluminação está presente na zona de exposição de electrodomésticos mais delicados, como sejam computadores e máquinas fotográficas.

As temperaturas de cor baixas entre os 2000º e os 4000º Kelvin são as que geram conforto, salientam o requinte, convidam à permanência. Quando se associam estes parâmetros à intensidade luminosa e à difusão conseguem-se os ambientes apetecidos. Não se pense no entanto que a ausência de luz será o supra-sumo do conforto. A ausência de luz é o sono, é o adormecer dos sentidos.

Fátima Dias, decoradora em Cascais, tem a preocupação de não abafar a luz quando realiza alguma intervenção numa casa. “Quando se fala de luz natural, a escolha entre uma persiana e um cortinado são determinantes para a quantidade de iluminação pretendida. Uma persiana permite dosear o fluxo de luz, enquanto um cortinado barra a luz ou permite a sua entrada em jorro dentro de casa.” A opção da escolha passa (quase sempre) pela localização das janelas em relação ao sol, depois de ponderado outro factor que é o classicismo ou modernidade da decoração interior.

Iluminar de raiz
João de Sousa Rodolfo preocupa-se com a luz natural como um elemento básico dos seus projectos de arquitectura. “Depois de definido o conceito do objecto arquitectónico a criar, começo por pensar na luz natural como elemento essencial da leitura do objecto na sua globalidade. Penso nos percursos de aproximação e nas vivências interiores sob uma luz cuja intensidade, temperatura de cor e grau de difusão variam com as condições atmosféricas, com a hora do dia e, até, com o dia do ano. Avalio as condições extremas de azimute e altura solares, sobretudo no controlo de aberturas e vãos que relacionam interior e exterior.”

No entanto, ter uma boa iluminação natural não é contrário a que se construa um cenário de luz artificial. “A luz artificial, ao contrário da natural, pode ter uma parametrização rigorosa quanto à localização espacial e características da fonte luminosa. O ambiente criado por este tipo de luz é necessariamente diferente do produzido pela iluminação natural, requerendo cada espaço um tratamento específico. O projectista deverá prever intensidade, temperatura de cor e graus de difusão de luz de acordo com o espaço a que se destina, avaliando a sua interacção com formas, cores e texturas e tendo em conta que esses factores influenciarão o comportamento de futuros utilizadores.”

A luz pode ter uma intencionalidade comunicativa ao acentuar ambientes. Um jardim interior pode servir de exemplo. Fátima Dias refere as opções utilizadas para um jardim de uma vivenda na zona de Sintra, com duas pérgulas e caminhos em gravilha: “Uma vez que a utilização deste jardim é feita tanto de dia como de noite, as duas pérgulas possuem candeeiros de suspensão dissimulados junto aos bancos existentes, que criam a iluminação necessária para a leitura nocturna. Como os caminhos em gravilha demarcam a área de passeio da área de relva, optou-se pela iluminação com pequenas velas de chão flutuantes, que geralmente são acendidas apenas quando existe alguma visita. Aqui, a luz apenas acentua os espaços de percurso, sem ofuscar a pretendida beleza da noite e da exposição do jardim à luz das estrelas.”

O sublimar do conceito de modelação luminosa estará, por exemplo, numa casa de banho em que as paredes de vidro para o exterior sejam dominantes. Uma casa de banho é, por excelência, um local de recato. No entanto, se a sua colocação na casa permitir usufruir da luz natural e do contacto com a natureza, eliminando os olhares indiscretos, a sensação de prazer e conforto será sublinhada. Esta opção de iluminação é utilizada com alguma regularidade nos países nórdicos, onde a luz natural é um bem escasso.

As luzes de chão e de tecto
A utilização de iluminação de chão nos interiores obriga a várias ponderações. Fátima Dias recorda que a existência de móveis de dimensão elevada provoca sombras quando este tipo de iluminação é mal utilizado, uma vez que “o contraste de zonas de sombra com zonas de luz pode criar algum desconforto”.

“Quando me questionam sobre iluminação de chão, a maior parte das vezes acabo por sugerir a utilização de projectores elevados que utilizem o reflexo da luz no tecto. Prefiro utilizar a iluminação de chão em zonas de estar exteriores, em que aparecem apenas como pontos de luz, demarcando zonas de penumbra. No entanto, o rebordo interior de uma piscina junto à casa pode ser iluminado com fibra óptica, salientando todo o contorno da piscina ao mesmo tempo que cria um ambiente aquático com luz difusa e que ilumina aquela área.”

Os candeeiros de suspensão continuam a ser a opção mais generalizada. Mas, mesmo com eles, podem ser criados vários ambientes dentro de uma única sala. “Supondo uma sala de estar com duas zonas, em que uma é dominada por uma mesa de jogo, esta última pode ser iluminada por um carcel que, ao ser baixado, acentua e individualiza os elementos. A outra área pode estar também individualizada se forem utilizados projectores com reguladores de intensidade de luz de forma a poderem ser criadas duas atmosferas numa mesma divisão, jogando com o contraste da luz e da penumbra.”

Os estudos científicos realizados indicam que os projectores ideais são aqueles que possuem reflectores de 140º de forma a não projectarem a luz em feixe directo. Este tipo de projectores permite uma melhor iluminação, uma vez que optimiza a quantidade de luz projectada, conseguindo reduzir o desperdício e, simultaneamente, criar ambiente repousante.

A opção pela iluminação de tecto ou de projector pode ser condicionada pela existência de elementos externos. A existência de árvores no jardim, para além de condicionar a dimensão das janelas, irá ditar a quantidade de iluminação pretendida em alturas do ano em que as sombras externas condicionam a luz interior. “Em algumas situações desse tipo já utilizei iluminação junto das janelas, criando a simulação de que a fonte de luz continua a vir do exterior”, refere Fátima Dias. “Mas também já utilizei a demarcação completa de espaços, deixando a janela como elemento escuro. Estas opções têm sempre a ver com a forma como as pessoas encaram a sua casa, e esse é o ponto fundamental.”

Há sempre que ter em linha de conta a existência de espelhos fixos, uma vez que serão elementos que irão potenciar a iluminação dessa divisão, criando maior luminosidade e acentuando a profundidade visual.


As velas
A iluminação por velas é uma das formas de criar calor visual. A vela representa o passado, quando a iluminação artificial era deficiente, representa uma relação de proximidade, seja entre as pessoas seja na sua relação com as entidades divinas.
“A vela é essencialmente um elemento decorativo e que pode pontuar uma iluminação de festa. As velas acesas nas mesas ou as velas acesas nos jardins são elementos de realce. São pequenas concentrações de luz que, com a sua oscilação, chamam a atenção. São apenas um pequeno fogo que está ali, e como o fogo é um dos elementos que marcou a evolução humana, essa atracção persiste”, afirma Fátima Dias. “A vela é, e será, uma iluminação de realce, salvo nos casos extremos em que a electricidade falha. E nessas situações a vela acaba por ser a chama de referência que se mantém até que tudo volte à normalidade.”

 

 
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