Iluminar bem uma casa é uma tarefa
difícil para o comum dos cidadãos, apesar de
ser praticada pela maior parte das pessoas. Sabe-se, por intuição,
que certos tipos de iluminação não são
adequados. Quase toda a gente já terá observado
o efeito fantasmagórico que um projector de chão
causa quando o seu feixe de luz incide, quase na vertical,
sobre uma estátua. É quase óbvio que
esse tipo de iluminação não deve ser
utilizado. Mas se nos afastarmos 50 metros da estátua,
o efeito do feixe de luz sublinha alguns contornos que são
marcantes naquele elemento.
O arquitecto João de Sousa Rodolfo
sabe que a luz constitui um factor determinante na leitura
da forma e do espaço. Para planear uma casa, ele tem
presentes alguns factores da biologia que irão ditar
o comportamento humano no espaço que ele está
a criar. “O olho humano é sensível a um
espectro de comprimentos de onda reflectidos pelas superfícies
dos objectos, captada por cones e bastonetes visuais. No processo
de transformação da informação
visual em imagem mental o homem introduz sempre factores de
significação de origem biológica ou cultural.
Por outro lado, a luz provoca sombras e cambiantes claro/escuro
que constituem um dos principais índices de leitura
da profundidade, isto é, contribui para a percepção
da tridimensionalidade dos objectos e das relações
entre eles.
Deste
modo, o arquitecto terá de incorporar no percurso conceptual
do seu projecto este elemento essencial, considerando os seus
aspectos fundamentais: natureza da fonte luminosa (luz natural
ou luz artificial), intensidade luminosa, temperatura de cor
e grau de difusão.”
Noções básicas
As lâmpadas dividem-se em incandescentes e fluorescentes.
As incandescentes normais são utilizadas para a iluminação
geral, visto que proporcionam luz quente em todas as direcções.
As lâmpadas incandescentes de halogéneo difundem
luz branca e quente e têm boa utilização
iluminante.
As lâmpadas fluorescentes fornecem grande quantidade
de luz difusa, mas interferem na definição das
cores. A sua luz fria fomenta a actividade. Tornam-se mais
baratas que as lâmpadas convencionais, visto que duram,
por norma, 10 a 20 vezes mais que as incandescentes. Devido
ao tipo de luz que projectam não são aconselháveis
para as zonas de descanso da casa.
Na cozinha
A iluminação deve ser ampla e difusa, de modo
a que se veja sempre e em todo o lado, mesmo dentro dos armários.
Aconselha-se aqui a utilização de lâmpadas
fluorescentes.
Na
casa de banho
É necessária boa iluminação, especialmente
em torno do espelho, para evitar ver falsas rugas causadas
por sombras. Sendo possível, o estilo de iluminação
tipo camarim de teatro é aconselhável. A luz
de tecto deve iluminar bem e proporcionar sensação
de bem-estar.
No escritório
A iluminação deve estar colocada à direita
ou à esquerda da secretária, de forma a que
ilumine os ombros de quem se senta. A localização
dos candeeiros não deve interferir com o ecrã
de computador.
Para ler
O foco da lâmpada deve estar dirigido ao livro, um pouco
atrás e acima da pessoa. Uma lâmpada de 60 watts
será suficiente.
Para ver TV
Não deve ter a sala na obscuridade nem deve ter luz
a incidir no ecrã. A parede por detrás do televisor,
ou a zona em volta, deve estar iluminada com luz difusa.
Temperatura da cor
Quando se fala em temperatura da cor (e da luz), fala-se de
uma dimensão pouco clara para a maioria das pessoas.
Um fotógrafo ou um operador de televisão sabem
perfeitamente o que isso é. Consoante a temperatura
da cor, assim irá variar a sensibilidade do filme e
dos filtros que utilizam para obter o melhor resultado.
As temperaturas da cor têm três padrões
base de graduação. Até aos 2000º
Kelvin, entre os 2000º e os 4000º Kelvin e acima
dos 4000º Kelvin (paradoxalmente diz que se tem luz fria
quando a temperatura Kelvin é elevada).
A luz “fria”, ao acentuar os contrastes cromáticos,
pode provocar desejo de acção, de consumo, de
curta permanência. Uma passagem pelo hipermercado pode
servir para perceber este tipo de iluminação.
Ali as sombras estão reduzidas ao insignificante, tudo
está exposto, a explosão das cores domina os
sentidos. Apenas nas áreas onde é necessário
aliar alguma ponderação ao motivar do consumo
a luz baixa de temperatura, criando uma falsa intimidade.
Normalmente este tipo de iluminação está
presente na zona de exposição de electrodomésticos
mais delicados, como sejam computadores e máquinas
fotográficas.
As
temperaturas de cor baixas entre os 2000º e os 4000º
Kelvin são as que geram conforto, salientam o requinte,
convidam à permanência. Quando se associam estes
parâmetros à intensidade luminosa e à
difusão conseguem-se os ambientes apetecidos. Não
se pense no entanto que a ausência de luz será
o supra-sumo do conforto. A ausência de luz é
o sono, é o adormecer dos sentidos.
Fátima Dias, decoradora em Cascais, tem a preocupação
de não abafar a luz quando realiza alguma intervenção
numa casa. “Quando se fala de luz natural, a escolha
entre uma persiana e um cortinado são determinantes
para a quantidade de iluminação pretendida.
Uma persiana permite dosear o fluxo de luz, enquanto um cortinado
barra a luz ou permite a sua entrada em jorro dentro de casa.”
A opção da escolha passa (quase sempre) pela
localização das janelas em relação
ao sol, depois de ponderado outro factor que é o classicismo
ou modernidade da decoração interior.
Iluminar de raiz
João de Sousa Rodolfo preocupa-se com a luz natural
como um elemento básico dos seus projectos de arquitectura.
“Depois de definido o conceito do objecto arquitectónico
a criar, começo por pensar na luz natural como elemento
essencial da leitura do objecto na sua globalidade. Penso
nos percursos de aproximação e nas vivências
interiores sob uma luz cuja intensidade, temperatura de cor
e grau de difusão variam com as condições
atmosféricas, com a hora do dia e, até, com
o dia do ano. Avalio as condições extremas de
azimute e altura solares, sobretudo no controlo de aberturas
e vãos que relacionam interior e exterior.”
No entanto, ter uma boa iluminação natural não
é contrário a que se construa um cenário
de luz artificial. “A luz artificial, ao contrário
da natural, pode ter uma parametrização rigorosa
quanto à localização espacial e características
da fonte luminosa. O ambiente criado por este tipo de luz
é necessariamente diferente do produzido pela iluminação
natural, requerendo cada espaço um tratamento específico.
O projectista deverá prever intensidade, temperatura
de cor e graus de difusão de luz de acordo com o espaço
a que se destina, avaliando a sua interacção
com formas, cores e texturas e tendo em conta que esses factores
influenciarão o comportamento de futuros utilizadores.”
A
luz pode ter uma intencionalidade comunicativa ao acentuar
ambientes. Um jardim interior pode servir de exemplo. Fátima
Dias refere as opções utilizadas para um jardim
de uma vivenda na zona de Sintra, com duas pérgulas
e caminhos em gravilha: “Uma vez que a utilização
deste jardim é feita tanto de dia como de noite, as
duas pérgulas possuem candeeiros de suspensão
dissimulados junto aos bancos existentes, que criam a iluminação
necessária para a leitura nocturna. Como os caminhos
em gravilha demarcam a área de passeio da área
de relva, optou-se pela iluminação com pequenas
velas de chão flutuantes, que geralmente são
acendidas apenas quando existe alguma visita. Aqui, a luz
apenas acentua os espaços de percurso, sem ofuscar
a pretendida beleza da noite e da exposição
do jardim à luz das estrelas.”
O sublimar do conceito de modelação luminosa
estará, por exemplo, numa casa de banho em que as paredes
de vidro para o exterior sejam dominantes. Uma casa de banho
é, por excelência, um local de recato. No entanto,
se a sua colocação na casa permitir usufruir
da luz natural e do contacto com a natureza, eliminando os
olhares indiscretos, a sensação de prazer e
conforto será sublinhada. Esta opção
de iluminação é utilizada com alguma
regularidade nos países nórdicos, onde a luz
natural é um bem escasso.
As luzes de chão e de tecto
A utilização de iluminação de
chão nos interiores obriga a várias ponderações.
Fátima Dias recorda que a existência de móveis
de dimensão elevada provoca sombras quando este tipo
de iluminação é mal utilizado, uma vez
que “o contraste de zonas de sombra com zonas de luz
pode criar algum desconforto”.
“Quando me questionam sobre iluminação
de chão, a maior parte das vezes acabo por sugerir
a utilização de projectores elevados que utilizem
o reflexo da luz no tecto. Prefiro utilizar a iluminação
de chão em zonas de estar exteriores, em que aparecem
apenas como pontos de luz, demarcando zonas de penumbra. No
entanto, o rebordo interior de uma piscina junto à
casa pode ser iluminado com fibra óptica, salientando
todo o contorno da piscina ao mesmo tempo que cria um ambiente
aquático com luz difusa e que ilumina aquela área.”
Os candeeiros de suspensão continuam
a ser a opção mais generalizada. Mas, mesmo
com eles, podem ser criados vários ambientes dentro
de uma única sala. “Supondo uma sala de estar
com duas zonas, em que uma é dominada por uma mesa
de jogo, esta última pode ser iluminada por um carcel
que, ao ser baixado, acentua e individualiza os elementos.
A outra área pode estar também individualizada
se forem utilizados projectores com reguladores de intensidade
de luz de forma a poderem ser criadas duas atmosferas numa
mesma divisão, jogando com o contraste da luz e da
penumbra.”
Os estudos científicos realizados indicam que os projectores
ideais são aqueles que possuem reflectores de 140º
de forma a não projectarem a luz em feixe directo.
Este tipo de projectores permite uma melhor iluminação,
uma vez que optimiza a quantidade de luz projectada, conseguindo
reduzir o desperdício e, simultaneamente, criar ambiente
repousante.
A opção pela iluminação de tecto
ou de projector pode ser condicionada pela existência
de elementos externos. A existência de árvores
no jardim, para além de condicionar a dimensão
das janelas, irá ditar a quantidade de iluminação
pretendida em alturas do ano em que as sombras externas condicionam
a luz interior. “Em algumas situações
desse tipo já utilizei iluminação junto
das janelas, criando a simulação de que a fonte
de luz continua a vir do exterior”, refere Fátima
Dias. “Mas também já utilizei a demarcação
completa de espaços, deixando a janela como elemento
escuro. Estas opções têm sempre a ver
com a forma como as pessoas encaram a sua casa, e esse é
o ponto fundamental.”
Há sempre que ter em linha de conta a existência
de espelhos fixos, uma vez que serão elementos que
irão potenciar a iluminação dessa divisão,
criando maior luminosidade e acentuando a profundidade visual.
As velas
A iluminação por velas é uma das formas
de criar calor visual. A vela representa o passado, quando
a iluminação artificial era deficiente, representa
uma relação de proximidade, seja entre as pessoas
seja na sua relação com as entidades divinas.
“A vela é essencialmente um elemento decorativo
e que pode pontuar uma iluminação de festa.
As velas acesas nas mesas ou as velas acesas nos jardins são
elementos de realce. São pequenas concentrações
de luz que, com a sua oscilação, chamam a atenção.
São apenas um pequeno fogo que está ali, e como
o fogo é um dos elementos que marcou a evolução
humana, essa atracção persiste”, afirma
Fátima Dias. “A vela é, e será,
uma iluminação de realce, salvo nos casos extremos
em que a electricidade falha. E nessas situações
a vela acaba por ser a chama de referência que se mantém
até que tudo volte à normalidade.”
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