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CASAS E INTERIORES
 
 





 
 
Recrie o estilo desta casa
Num prédio centenário, em Lisboa, Filipa Ferreira construiu um templo de luz. O branco das paredes e o restante colorido de peças home made revelam a sua característica mais marcante: a boa disposição.

texto de Áureo Soares | produção de Cláudia Tico | fotografias de José Barreto

 
 
Dizem que a magia da rádio reside no facto de não haver rostos. Apenas vozes. Enquanto falo com Filipa Ferreira, pelo telefone, para acertar uma data para a entrevista, imagino-lhe um rosto, crio-lhe feições. Do outro lado, uma voz calma confirma data e hora. Tenho um nome e uma morada, e parto à descoberta. Desta vez, a imaginação não me traiu. A voz parecia corresponder a alguém alegre e, de facto, Filipa Ferreira irradia boa disposição em cada palavra, a cada frase que profere. Não será por coincidência que o seu destino de eleição é o Brasil. Há Sol e alegria, além da língua, “um aspecto muito importante” para a sua preferência pela terra descoberta por Pedro Álvares Cabral. Por enquanto, estamos em Lisboa e é o Sol de uma tarde primaveril – com uma temperatura que ultrapassa largamente os 20 graus – que entra pelas três clarabóias da sala de Filipa.

Chave da casa
Área: 170 m2 Tipologia: T2, com dois quartos, sala, cozinha e duas casas de banho Projecto de decoração da proprietária, Filipa Ferreira
A mesa, da autoria de Filipa, foi executada pela Redel Construções. O prato e o candelabro foram adquiridos em Marrocos e o quadro em Nova Iorque. Escultura de uma flor de Marco Leandro. Na parede, com letras em papel autocolante, pode ler-se um poema de Sophia de Mello Breyner
Na sala de estar, cadeirão de veludo na D’Época. Almofadas, sofás e poufs feitos pela proprietária. A sala de estar comunica com a cozinha através de uma “parede” em vidro
Na sala de estar e jantar, mesas de centro e de refeições desenhadas pela proprietária e executadas na Redel Construções. As cadeiras Louis Ghost, da autoria de Philippe Starck, para a Kartell, na D’Época. Litografia Dr. Dog, de Paula Rego. Candeeiro de tecto, na Mood. O prato e o candelabro foram adquiridos em Marrocos. Cadeirão de veludo, na D’Época.
Sobre a mesa, chávena da Habitat, na Area, bule e açucareiro da Vista Alegre. Tigela cor-de-rosa, na Casa. Os individuais, em crochet, foram feitos pela tia da proprietária.
Recanto com credência, adquirida num antiquário, e candeeiro circular, na Colonial Club. Jarra em inox, da Alessi. Galo de Barcelos, adquirido na Mundo Mix.
Recanto à entrada da cozinha onde Filipa coloca fotografias e postais de amigos e viagens.
Há chill out no ar. “Estamos a oxigenar”, diz-me Filipa, referindo-se à rádio. Conversamos na sala, com a litografia Dr. Dog, de Paula Rego – uma das peças de que não se desfaz –, por perto.

Profissão? “Empresária.” Além da consultoria de materiais, para cozinhas e casas de banho, é decoradora e apaixonada pela profissão. A actividade de Filipa Ferreira define-se da seguinte forma: compra imóveis, remodela-os ao seu estilo e vende-os. Quando, durante o processo de decoração, se apaixona pelo espaço, como foi o caso, muda-se de armas e bagagens. Vive neste espaço há quase um ano, desde que abandonou o edifício de três pisos na Graça, que a Máxima Interiores mostrou na edição de Setembro de 2006.

“Revejo-me em todas as casas que faço. E esta tinha tanto potencial que, assim que entrei, vislumbrei imediatamente o aspecto com que ficaria.” Por potencial, Filipa entende “a arquitectura, o tecto esconso, a luz e a vista, lindíssima, de dia e de noite”, diz-me.

Da casa de banho a vista continua a ser fantástica, com o Palácio da Ajuda como pano de fundo. Sem vizinhança, Filipa dá-se ao luxo de não ter “segredos”, como afirma, em jeito de brincadeira, quando aponto um pequeno grande pormenor: a falta de cortinados ou de qualquer outra forma de cobertura na janela da casa de banho.

Filipa gosta de receber e de organizar festas e jantares. E esses são momentos que guarda fielmente na memória. Já no final da nossa conversa, conta-me uma curiosidade que a define. Lembra-se de uma amiga ter saído de sua casa com um lustre, num furto de brincar consentido por si: “Nunca me desfaço das minhas peças. Empresto-as a amigos, revejo-as quando os visito e eles devolvem-mas mais tarde”, resume, acrescentando: “Assim posso ter muito mais do que o espaço me permite. As peças vão rodando.”

“Não concordo com a ideia de espaços estanques”, afirma Filipa, plena de convicção. Por isso, a cozinha, que não tem porta, comunica com a sala através de uma parede de vidro, assim como a zona de duche não se divide do restante espaço da casa de banho. São estes pormenores que fazem com que os espaços criados por Filipa agradem a quem os vê, mesmo que não se consiga adivinhar imediatamente o porquê.

No quarto, sobre a mesa de cabeceira, Gabriel García Márquez e os seus Cem Anos de Solidão deixam transparecer o que Filipa tem de mágico: o realismo. “Inspiro-me no dia-a-dia e é desta forma que concebo os espaços”, revela-me. Se a literatura é uma paixão? Sim e não. Não tem autores nem obras de referência, apenas sente. É esse sentir que vem à tona quando lemos o poema Pudesse Eu, de Sophia de Mello Breyner Andresen, que embeleza a sala: “Pudesse eu não ter laços nem limites/ Ó vida de mil faces transbordantes/ Para poder responder aos teus convites/ Suspensos na surpresa dos instantes.” Porquê este poema? “Porque é o que sou, agora.”

Casa de banho com pavimento e revestimento cerâmico e duche da Onda Banho, tudo na Trimaco. Vasos da Ikea com flores da Em Nome da Rosa.
No quarto principal, colcha e quadro sobre a mesa de cabeceira, ambos da autoria da proprietária. A cadeira antiga, recuperada pela proprietária, já se encontrava na sua casa anterior. Junto à janela, vaso da Ikea com flores da Em Nome da Rosa.
Na casa de banho, móvel executado na Redel Construções. Lavatório da Bath Co e torneira da Onda Banho, ambos na Trimaco. Lustre de família.
O mundo de Filipa
Época – Século XIX Destino – Brasil Canto da casa – Sala Prato – Sushi e cozinha vegetariana Bebida – Água e sumos naturais Prazer – Praia e viajar Dia perfeito – Ir à praia e estar com os amigos
Faça você mesmo

Adepta do do it yourself, Filipa Ferreira faz da criatividade um modo de vida. Com base nas ideias da proprietária, aqui ficam algumas dicas para personalizar espaços.

Oliveira de interior: Só necessita de um sistema de drenagem, para escoar a água da rega em excesso, e de ser podada.

Lustre na casa de banho: Esqueça o preconceito. Um lustre, fotografias ou quadros dão-lhe um ar mais acolhedor.

Espelho na cozinha: Tão fácil de limpar como o azulejo, confere-lhe uma ilusão de espaço.

Almofadas feitas à mão: Bordadas ou com sobras de tecidos, estimulam a criatividade e dão um toque de originalidade único.
No quarto, a arca em verga veio da casa anterior. A consola e o espelho foram desenhados por Filipa e concebidos na Redel Construções. Moldura em vidro, na Arquitectónica Empório Casa. Lustre, na D’Época.
Sobre a consola, Santos de Roca oferecidos pela tia da proprietária e escultura em pedra de João Cutileiro, utilizados como suporte de colares. Quadro de Almada Negreiros.
por Nuno Lago
1. Candeeiro de suspensão, preço sob consulta, Barovier e Toso. 2. Cómoda Volubilis lacada, €3858, Roche Bobois. 3. Secretária em vidro, €526 (cavaletes), €811 (tampo), Ligne Roset. 4. Prato marcador Croco, €10, pratos rasos, a partir de €9, Companhia do Campo. 5. Solitário Eggvase em cerâmica, Moooi, €82,30, Domo. 6. Cacto decorativo, lacado, preço sob consulta, Gufran. 7. Conjunto de vasos em cerâmica, Polspotten, preço sob consulta, Domo. 8. Mesa de apoio Mayer, €160 e cadeira Império, €175, tudo Homes in Heaven. 9. Cadeirão com braços Ornamenta, €40, Homes in Heaven. 10. Candeeiro com pé metálico, €29,90, Moviflor. 11. Candeeiro de chão Lysbord, Verpan, preço sob consulta, Arte Assinada.  
 
 





 



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